Río y bosque, Valle de Andorra, Ushuaia

Río y bosque, Valle de Andorra, Ushuaia
enero de 2019

Canal Beagle, Ushuaia

Canal Beagle, Ushuaia
enero de 2019

viernes, 14 de abril de 2023

Jorge Vicente

 

MARÉ

 

Jorge Vicente

Traducción al español: Federico Rivero Scarani

 

 

1.      

a vida é esse corpo incondicional de

gente,

essa massa humana - informe, húmida,

ancestral -

essa fome, instinto, desejo, corporeidade

profunda

 

esse tudo e essa plena ânsia de ser e de

viver

essa arte maior - santificar no chão a própria

existência.

 

a vida é esse inacabar de limites,

prometer mais que a mim mesmo,

amar, romper, escrever - desejar e criar um

texto sem hierarquias.

 

a vida é pulsão incondicional

alimento do fogo interior

nascência permanente,

escrita mística de um texto

aberto à orgia.

-----------------------

 

MAREA

1

 

la vida es ese cuerpo incondicional de

gente,

esa masa humana – informe,

húmeda,

ancestral –

esa hambre, instinto, deseo,

corporeidad

profunda

 

ese todo y esa ansia plena de ser e

de

vivir.

ese arte mayor – santificar en el suelo

la propia existencia.

 

la vida es ese inacabar de límites,

prometer más que a mí mismo,

amar, romper, escribir – desear

y crear un texto sin jerarquías.

 

la vida es pulso incondicional

alimento del fuego interior

nacimiento permanente,

escritura mística de un texto

abierto a la orgía.

 

-----------------------.

 

 

2.      

perdoa, meu amado,

a minha ternura:

um pouco de desejo fresco

um rio sempre muito grande

e braços e pernas e árvores

e ordens amorosas de sentido

perdoa se traí o amor a vida

e o poema:

o amor estreito entre duas aves

ou entre dois corpos

ou entre duas palavras

no intervalo de um fruto

perdoa se entre o dia de ontem

e o de amanhã

naveguei entre dois cavalos e duas

fascinantes palavras

 

esta arte da fome e da ambição

que entre flores nos comove.

---------------------

2

perdona, mi amado,

mi ternura:

 

un poco de deseo fresco

un río siempre muy grande

y brazos y piernas y árboles

y amorosas órdenes de sentido

 

perdóname si traicioné el amor la vida

y el poema:

 

el amor estrecho entre dos aves

o entre dos cuerpos

o entre dos palabras

en el intervalo de un fruto

 

perdóname si entre el día de ayer

y el de mañana

navegué entre dos caballos

y entre dos palabras fascinantes

 

este arte del hambre y de la ambición

que entre flores nos conmueve.

-------------------

3.      

água, mas a água tem a certeza da língua

e da violenta fome que alimenta o poema

como se precisasse morrer

para atravessar as palavras

 

água, não volta nunca mais

para a paixão desse imenso pássaro

que voa em torno do rio.

 

 

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3

agua, el agua tiene la certeza de la lengua

y de la violenta hambre que alimenta al poema

como si precisase morir

para atravesar las palabras

 

agua, no vuelve nunca más

para la pasión de ese inmenso pájaro

que vuela en torno del río.

 

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4

já é madrugada

e o meu corpo ainda não tem pele

para suportar o teu osso,

 

acorda, acorda, acorda

numa ânsia vibrada por

centenas de galopes,

uma sílaba selvagem

entre pequenas mortes

de pele.

 

*************************************

4

ya es madrugada

y mi cuerpo aún no tiene piel

para soportar tu hueso,

acuérdate, acuérdate, acuérdate

en un ansia vibrante por centenas de galopes,

una sílaba salvaje

entre pequeñas muertes de piel

 (c) Jorge Vicente

Portugal

traducción al español: Federico Rivero Scarani

 

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2019).

Contacto: jorgevicente.seacarrier@gmail.com

 

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